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quarta-feira, dezembro 15, 2021

Imaginar é preciso, sempre ! - Elvira Souza Lima

 



"Gosto mais do rádio, porque pelo rádio vejo paisagens mais bonitas". Foi esta a resposta de uma das poucas crianças inglesas que preferiu o rádio à televisão em uma pesquisa da BBC de Londres. O fato é narrado por Eduardo Galeano em seu interessante livro "Pernas pro ar - A escola do mundo do avesso". 

Ao ouvir uma história, nosso cérebro pode criar imagens, cenas e narrativas imagéticas mais interessantes do que aquelas ofertadas visualmente em imagens televisivas, vídeos, etc. Imaginar não tem os limites da percepção do objeto real.  É assim, como Alice do outro lado do espelho, imaginar é  virar o mundo do avesso. Só que a infância tem a grande vantagem de fazer disto seu processo de desenvolvimento.

Imaginar é o fazer fundamental da infância: seja no desenho, na música, no faz de conta, na dramatização, na dança, ou, simplesmente, olhando as nuvens no céu, o que a criança precisa fazer é isto. Criar. E será o adulto que consegue sair do lugar comum, virar o mundo do avesso, criar novos padrões de percepção. E assim se libertar da mesmice. Imaginar  é preciso, sempre!




sábado, setembro 19, 2020

Seminário de Produção Cultural Yluaê Odara - Sábado 19 de Setembro – 16 horas

 


O Grupo Entrou Por Uma Porta, através do Edital Cultura nas Redes – Secec- RJ, convida para o Seminário de Produção Cultural Yluaê Odara, visa a construção de núcleo de estudo de cultura e produção cultural virtualmente ( educação a Distancia).Neste estaremos oferecendo um amplo painel de atividades inter-relacionadas com um objetivo dialogar sobre a produção cultural com enfase no audiovisual e cultura de periferia.
 
A integração dos saberes: arte, sociedade, tecnologia e educação em uma experiencia criativa de uma nova humanidade 4.0, que utiliza a intensa disseminação das tecnologias digitais e da internet 4.0, na qual se integram os ambientes virtuais de aprendizagem 4.0, além de recursos tais como wikis, blogs, twiters, soluções que admitem tanto a escrita individual quanto a colaborativa.
 
Sábado 19 de Setembro – 16 horas
 
As Narrativas e o Audiovisual uma construção de Ideias
 
Elvira Souza Lima
Clarice Campos
Sandro Lopes
 
Publicação:

quinta-feira, junho 04, 2020

CURRÍCULO EMERGENCIAL PARA A EDUCAÇÃO DURANTE E APÓS A PANDEMIA (Junho 2020)

ELVIRA SOUZA LIMA


“(...) A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados? Vamos aproveitar toda a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos. Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos.”

                                 Ailton Krenak


1. PRESSUPOSTOS

Somos seres sociais, dependemos de ações compartilhadas, de vários tipos de interação com o outro, das pessoas com quem mantemos relacionamento afetivo, bem como precisamos de um contexto cultural que nos dê suporte simbolicamente.
Uma ruptura no tecido social que nos acolhe e nos dá as bases simbólicas de pensamento e instrumentação para ação, acaba por provocar instabilidade no funcionamento do sistema emocional que, por sua vez, pode impactar a saúde do próprio corpo.
Com a atual pandemia, houve uma quebra momentânea no convívio social, afetando os laços de afetos e exercício da empatia pela suspensão de ações de comunicação social direta.  Esta é uma experiência difícil para qualquer pessoa.
Sentimos uma vulnerabilidade física e psicológica, ficamos em quase constante estado de alerta. Nosso cérebro encontra-se acuado. No entanto, a modificação desta realidade não depende de nossa vontade. Temos um inimigo real, do qual ainda não temos proteção, nem sabemos como a situação irá evoluir.
Estamos inquietos, estamos com medo e procuramos navegar no cotidiano afetados por estas emoções, buscando seguir com alguma rotina que nos lembre, de alguma forma, a organização anterior em nosso dia a dia.  A situação de medo e estresse que se instalou gera no cérebro a liberação de substâncias químicas negativas, digamos assim. Precisamos, na verdade, contrabalançar os processos químicos de stress no cérebro com processos químicos que nos fazem sentir bem.
Se não podemos mudar a realidade no momento, podemos modificar nossas reações incluindo atividades benéficas, que liberam substâncias químicas que nos fazem sentir bem e atingem a área de recompensa do cérebro.
A escola se apresenta, nesta situação, como um campo promissor de ação. Ela envolve várias gerações e, por sua própria natureza, implica um espaço cultural de interação humana, ao qual todos retornarão futuramente, mas que por ora funciona à distância,

2. A PEDAGOGIA E A DIDÁTICA

São várias as questões que são e serão levantadas na educação escolar a partir do aparecimento e expansão do coronavírus e a pandemia que se instalou com ele. Estas questões atingirão tanto o grupo de alunos como a equipe gestora e os professores. Novas demandas surgirão, com certeza.
Podemos pensar a curto e médio prazos.
No curto prazo, o aspecto mais discutido tem sido a utilização da educação à distância em substituição ao ensino presencial. E é natural que assim seja e que este tema seja tão discutido, uma vez que não há disponível um conhecimento pedagógico formulado e desenvolvido para o ensino à distância em tempo integral da carga horária, da Educação Infantil ao Ensino Médio. É importante destacar que porcentagem importante das crianças na maioria dos países não tem internet, nem equipamento mínimo necessário para realização de EAD. Portanto, outras formas de docência precisam ser criadas.
No médio prazo seremos chamados a equacionar os valores e comportamentos sociais dos quais, a partir da epidemia, precisaremos nos ocupar na escola, em todos os graus de ensino.
É de grande relevância trazer o fato de que a pedagogia vem sendo revisitada e ressignificada durante a pandemia e, particularmente, a didática.
O coronavírus (e suas surpreendentes consequências) trouxe
a didática para o primeiro plano da cena da educação. Depois de muito tempo centradas na avaliação, as questões do ensino foram colocadas em evidência pelo fechamento das escolas e nas variadas alternativas propostas e desenvolvidas para seguir com a escolarização das crianças e jovens.
DIDÁTICA é um dos componentes da pedagogia, ciência do ensinar com o objetivo de fazer o aluno se apropriar do conhecimento formal: o conteúdo, a metodologia, a aplicabilidade e o desenvolvimento do inconsciente cognitivo.
A didática tem princípios organizadores, método e conceitos como toda ciência. O professor estuda didática para conhecer todas suas dimensões e, a partir daí, formular seu ensino que incorpora a sua experiência (conhecimento pedagógico próprio) constituindo assim um estilo de ensinar.
Quando chamada a atender a demanda posta pelo surgimento do Covid19, a preocupação principal da escola é continuar ensinando para que os alunos não percam a “proximidade com o currículo”. Para fazer face ao problema, foi acionado imediatamente o ensino remoto.

Ensino remoto e ensino à distância

Há uma diferença importante em passar da sala de aula ao ensino online (chamado por alguns de ensino remoto) e realizar ensino à distância. Este último já existe há vários anos e tem um acervo de conhecimentos acumulados, enquanto que a transferência imediata do ensino presencial é inédito. O que ocorreu e continua ocorrendo nos diversos países foi a demanda pouco clara feita aos professores para que ministrassem suas aulas online. Realmente, a situação foi de emergência e não havia de imediato outro caminho. Para países em que o ensino online faz parte da formação dos professores, o fechamento das escolas aconteceu de maneira mais harmoniosa.  O mesmo ocorreu em escolas particulares, principalmente, nos países em desenvolvimento. Isto tem demandado muitos esforços por parte dos professores que, muitas vezes, se frustram e com razão: é um desafio levar crianças a aprender conteúdos formais sem a presença do professor que é quem as guia.
Da mesma forma os pais foram envolvidos neste empenho para dar continuidade ao ensino sem disporem de conhecimento pedagógico, contando apenas com suas próprias memórias de seus anos como alunos. Na percepção da tela plana, de experiência limitada e de comunicação restrita, é difícil achar que se pode reproduzir o tecido social e cultural da sala de aula em casa.
Dentre tantas mensagens que recebi de gravações dos alunos para os professores, creio que a lucidez desta criança traduz com perfeição a complexidade da questão:
“Professora, desculpa te incomodar...mas eu queria falar que não   estou aprendendo nada...a mãe não tem estas manias de ensinar que você tem... a mãe trabalha no restaurante, ela tem manias de fazer comida, não tem as manias de ensinar, eu queria falar isto”
A mensagem gravada por esta criança traduz com clareza o que muitos estão percebendo: ser professora não é uma atividade corriqueira. Ser professor ou professora, em todos os níveis de ensino, é ser um agente cultural de formação humana, é ser um socializador de métodos e conceitos, é participar da narrativa da vida de cada aluno, é conduzir as crianças e os jovens à cidadania, levando-os a se apropriarem dos conhecimentos formais que a humanidade produziu em sua longa caminhada.
Profissão muito prestigiada em vários países e, infelizmente pouco valorizada em muitos outros, o educador foi alçado na presente conjuntura a uma posição de destaque no mundo todo, na medida em que a escola mesma se tornou uma instituição cuja importância foi revelada pelos fatos.
A espécie humana pode aprender muito e muitas coisas na vida cotidiana, na família, na comunidade. Porém os conhecimentos escolares, que são criados e desenvolvidos historicamente, precisam de um mestre que possibilite o caminhar de cada aluno.
Todos dependem do professor. Os cientistas que estão na linha de frente de combate ao coronavírus foram ensinados por professores, o mesmo podemos dizer dos profissionais da saúde. Assim acontece com todas as profissões. O professor garante a continuidade da espécie na transmissão do conhecimento acumulado, levando as novas gerações a continuar o percurso da espécie humana.

3. CURRÍCULO EMERGENCIAL DURANTE E APÓS PANDEMIA

O essencial de um currículo emergencial neste contexto é reestruturar e ampliar as ações educativas que promovam a humanização das novas gerações ao mesmo tempo em que ampliem os conhecimentos dos educadores.
Propomos, assim, apresentar e discutir os componentes principais de um currículo emergencial que atenda ao desenvolvimento humano e à vida social em um momento excepcional de novos desafios para as gerações atuais.
Impõe-se dar mais atenção aos sistemas expressivos, função simbólica, emoção e empatia, favorecer comportamentos criativos e estimular cooperação integrados aos conteúdos das áreas de conhecimento. Além disso, destacamos a formação de comportamentos necessários para as aprendizagens escolares, tais como atividades de estudo, comportamento leitor, metodologia de pesquisa e escrita.
A situação de ensino à distância provocada pela pandemia revelou que muitos alunos não tem autonomia necessária para estudar e tomar decisões a respeito da informação.  Revelou, também, que muitos alunos  não dominam as atividades de estudo e não tem conhecimento sobre  métodos de investigação.
Para a compreensão do momento inédito que vivemos, precisamos de uma fala interna, tanto para o educador como para os alunos, que contenha um acervo amplo de vocabulário, conceitos e instrumentos de pensamento, em que lógica e metáforas se destacam.
Igualmente observamos que não podemos prescindir dos conhecimentos científicos e matemáticos, que conferem ao pensamento possibilidades de aprofundamento das questões e movimentos inovadores para reflexão sobre e atuação no contexto da pandemia e seu impacto na organização social dos povos e de realinhamento dos princípios que regem a vida cotidiana.
Observamos, ainda, que a sensibilidade e a formação estética se destacam como prioridades do momento, uma vez que o impacto das artes na liberação de químicas de bem estar e ativação da área de recompensa do cérebro é crucial para buscar um equilíbrio emocional com diminuição do medo, angústia, ansiedade que a pandemia do Covid19 acarreta.

Pausas e Respiração

O cérebro precisa de pausas.
Isto significa que precisa de sono, então, uma das vertentes principais deste novo momento em que estamos todos imersos é garantir o sono, preservando os olhos e o cérebro da luz das telas de celular e computador pelo menos uma hora antes de dormir.
O cérebro precisa de pequenos períodos de repouso, 10 a 15 minutos, duas a quatro vezes por dia, ao menos. Estes intervalos contribuem para não haver sobrecargas químicas no cérebro, evitando o estresse, que libera cortisol.
Pausas na rotina diária escolar podem ser realizadas com introdução de ações que liberam dopamina e serotonina, como ouvir música instrumental, ouvir música com lírica e cantar junto, cantar música com gestos coreografados, realizar rotinas com movimentos corporais e/ou gestos. A educação física é um componente curricular que pode (e deve) passar a contribuir de forma mais ampla no cotidiano da escola. O movimento em si, como se sabe, é um eixo fundamental de desenvolvimento na espécie humana e tem um impacto considerável no bom funcionamento do cérebro. Em outras palavras, contribui para a saúde mental.
O cérebro precisa de oxigênio, então práticas de respiração lenta e profunda contribuem muito para aliviar tensão e para criar um contexto mental propício à aprendizagem. Será de grande valia introduzir 1 a 3 minutos de exercícios de respiração no início de cada aula, professor e alunos conjuntamente.
Deve-se considerar, também, a introdução de meditação como uma forma de suporte para os professores e gestores.  Na realidade, a formação continuada deverá ampliar sua abrangência incluindo o bem estar dos professores como um dos seus objetivos.

Empatia

A empatia deve ser uma prioridade ao elaborar o currículo. É desejável que ações que requerem agir com empatia sejam incluídas de modo constante, abrangendo as várias áreas de conhecimento.
 Destacamos, entre elas, ouvir o outro, compartilhar, deliberar conjuntamente, olhar para o interlocutor, estabelecer tons de voz acolhedores, manter-se bem humorado, criar gestos significativos que possam ser feitos à distância, programar atividades culturais que oferecem condições e promovem possibilidades de empatia. Muita dentre elas são as atividades culturais com base musical e/ou poética
Criar usos semânticos novos, ou seja, introduzir novas palavras que traduzam aspectos da situação de exceção que vivemos.

Pode-se desenvolver empatia por situações de contágio emocional, como é o caso daquelas que tenham base musical e poética. São exemplos: música, canto coral, jogral, recitação de poemas, cantigas quadrinhas e parlendas, músicas coreografas com gestos e movimentos

                                                                                                                                                                    Retorno à escola

Quando pensamos no retorno à escola há que se considerar que não é um retorno como se houvesse sido apenas um período de afastamento. O retorno não neutralizará os sentimentos experimentados quando do isolamento social, além de que as ameaças continuam e ninguém sabe qual será o comportamento do vírus, portanto as emoções e afetividade terão um papel importante nos meses após o retorno.
Os adultos da escola estarão ainda em situação de risco, portanto, precisam também serem acolhidos e respeitados em seu fazer pedagógico. Necessitarão de atualização constante sobre a evolução da pandemia e, consequentemente, fazer revisões das normas adotadas à medida que saiam novas informações.
Precisarão de suporte emocional mútuo e propostas coletivas de trabalho


4. QUAL EDUCAÇÃO PARA A INFÂNCIA APÓS PANDEMIA?

Será necessário priorizar os sistemas expressivos no currículo, ampliar práticas várias de movimento com o corpo e favorecer situações pedagógicas lúdicas.
Sistemas expressivos são as várias formas de ação humana que tem como base a emoção, entre as quais destacamos a literatura, poesia e a música.
Literatura e cérebro
Muito estudado na última década, o impacto da literatura no funcionamento do cérebro merece ser considerado para elevar a literatura a um patamar de centralidade no currículo escolar desde a educação infantil. É uma das atividades que movimenta diversas áreas abrangendo praticamente todo o cérebro. Por ser uma produção estética, a leitura da obra literária envolve o sistema emocional, a função simbólica e mobiliza a imaginação, tendendo a levar a pessoa a um estado de bem estar. A narrativa na obra literária ativa a narrativa individual do leitor, suas memórias pessoais e as emoções a elas anexadas.
Por mobilizar inúmeras áreas do cérebro localizadas nos diferentes lobos, integrando-as, a leitura de obras de literatura é altamente recomendável.

Música e poesia

A criança em seus primeiros anos de vida se apropria das formas humanas de comunicação, forma-se como um ser de cultura. Desta forma, a escola de educação infantil tem como eixo importante a formação cultural da criança. Com a pandemia, com o retorno à escola, atenção extra deve ser dada à programação de ações que respeitem o afastamento físico mas que, ao mesmo tempo, promovam sentimentos de pertencimento ao grupo. Ouvir histórias e poemas em grupo (mesmo quando sentados à distância) cria um ambiente afetivo, propício à comunicação e partilha de narrativa e significados.
Um grande recurso para proporcionar a experiência de grupo é a música.
A música atua no cérebro promovendo o contágio pelo sistema emocional e músicas coreografadas ou cantadas em coral acionam os neurônios espelho, criando, assim, uma experiência compartilhada. Combinando música com movimentos e gestos, cria-se uma coreografia que pode ser executada guardando o distanciamento físico. Dança, por integrar padrões de movimento e música, atinge diretamente as zonas de recompensa do cérebro.
O interessante é que estas propostas educativas envolvendo contação e dramatização de histórias, literatura, poesia, música e dança são complementares entre si e, quando organizadas em um currículo semanal com ocorrência de uma ou mais modalidades por dia, garantem à criança experiências emocionais positivas, que contribuem para contrabalançar os fatores restritivos de proximidade física.

5. CHUVA DE “PARAQUEDAS COLORIDOS”

Krenak (2019) sugere que para “adiar o fim do mundo” é necessário abrir a mente e discutir seriamente o futuro da espécie em harmonia com a natureza, abandonando de vez a exploração predatória bem como ampliando os diálogos entre os povos.
É inspirado pela sabedoria dos povos indígenas que sugiro a adoção de uma visão positiva da educação como a saída possível para o cinzento do tempo que estamos vivendo.
É um momento delicado e importante.  É a Educação que se coloca como o espaço de diálogo mais amplamente acessível a toda a população mundial. A metáfora que nos guia é, como convidou Krenak, “abrindo paraquedas coloridos. ”
Nosso desafio, no momento, é construir paraquedas coloridos!
Paraquedas são as ideias, as emoções, os conhecimentos destinados a promover a justiça social e o acesso ao que de melhor a humanidade produziu até o momento nas artes, nas ciências, na cultura, na linguagem.
Na escola podemos traduzir por desenhar cenários educativos, construir formas de ensino, formular currículos que garantam o respeito à experiência humana, em sua diversidade. Promover contextos educativos para o desenvolvimento humano: contextos educativos onde a empatia, o acolhimento e a tolerância, determinarão um ambiente mais propício à aprendizagem de todos.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A escola é um espaço de cultura e assim vai permanecer. O mesmo acontece com o professor: agente de cultura e formador de novas gerações
Estamos aprendendo que os pais não substituem o professor: o professor é um profissional que detém um conhecimento pedagógico específico e estruturado, formado a partir de seus estudos e da prática cotidiana com um grupo de alunos no espaço especializado da educação. Pai e mãe não dispõem deste conhecimento, a menos que sejam, eles próprios, professores, e o espaço domiciliar não pode reproduzir o espaço educativo da escola.
Aprendemos que a escola é um espaço de domínio da pedagogia, ciência que emergiu com destaque na situação da pandemia. A questão central não é a oposição de ensino presencial versus ensino à distância, embora tenha sido esta relação a primeira a emergir no discurso educacional nas primeiras semanas de isolamento físico. O uso da tecnologia para garantir a continuidade das aulas mostrou que o conhecimento pedagógico é essencial. A mera utilização das tecnologias disponíveis não é suficiente para levar ao processo de aprendizagem de alunos das várias idades submetidos a aulas de todas as áreas de conhecimento.
É a partir da didática, na qual o professor se apoia, que se poderá  incluir no projeto educacional o acolhimento do aluno e este será a agenda no retorno às aulas.
Quanto melhor o ensino, mais ele será um fator de formação humana, maiores as possibilidade de formação de memórias de longa duração, de instrumentos para o pensamento, reflexão, formação de conceitos, organização interna e argumentação. 
Em resumo: ensinar de forma que as experiências do educador e dos educandos na relação pedagógica e no espaço educativo sejam valorizadas e vivenciadas como experiências humanas fundamentais para o desenvolvimento de todos e de cada um.
 
A considerar durante a pandemia antes e após o retorno à escola:

Empatia  Emoção  Memória  Imaginação  Curiosidade 
Sistemas  expressivos   Sistemas simbólicos 
Conhecimento científico  Conhecimento linguístico
Arte



Referências:

KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Para saber mais, veja da autora:

Atividades de Estudo, São Paulo: Editora Inter Alia
Memória e Imaginação, São Paulo: Editora Inter Alia
Currículo, Comunicação e Cultura, São Paulo: Editora Inter Alia

livros@editorainteralia.com

www.elvirasouzalima.net
http://elvirasouzalima.blogspot.com/
instagram: @livroselviralima
https://souzalimaelvira.blogspot.com/ 
elvirasouzalima2@gmail.com
http://interaliaeditora.blogspot.com/





segunda-feira, julho 01, 2019

Neurociência na educação infantil: o significado do ato de desenhar

Elvira Souza Lima 
Marcelo Guimarães Lima




Resumo

Neste artigo apresentamos uma possibilidade de utilização da neurociência para a reflexão sobre um componente curricular, o desenho. Situamos o desenho como capacidade que surge na evolução da espécie humana, discutimos a predisposição genética para o traçado dos elementos básicos do desenho (ponto, linha, reta, ângulos e círculo) e como, a partir daí, o traçado evolui na criança pequena com o despontar da narrativa visual nas idades da Educação Infantil e, finalmente, a intervenção educacional que permite o pleno desenvolvimento da narrativa visual na criança pequena.  Apontamos a relevância de a neurociência ser incluída na formação do educador para que a escola garanta tempo e contexto para que a criança possa exercitar continuamente o ato de desenhar, desenvolvendo a imaginação e formando memórias. Partindo da neurociência e a necessária intersecção desta com a antropologia, e considerando as artes e o sentido estético, foi elaborada uma base teórico-prática para desenvolver um currículo para a Educação Infantil, adequado ao desenvolvimento da criança pequena: Viver a Infância (LIMA, 2005).  Nele, o desenho se insere como prática diária, dada a sua potencialidade como sistema expressivo da espécie e por constituir a identidade da criança, além de sua participação na apropriação da escrita e sua utilidade na aquisição de conhecimentos escolares das diversas várias áreas. Integrada a esta proposta, há o currículo de formação continuada para o professor, incluindo neurociência e as dimensões antropológicas e semióticas da produção de desenhos. Os desenhos aqui apresentados foram realizados por crianças da Escola de Educação Infantil de Guarani, pela equipe de professoras sob a coordenação de Heliana Bellotti e docência das professoras da equipe1e da professora Fabiana Alfim, da Rede Municipal de São Paulo, em uma escola de periferia. Eles são exemplos claros do potencial das crianças pequenas para realizar complexas narrativas visuais, quando se opta por incluir a perspectiva da neurociência no currículo e na formação dos educadores.

http://www.fumec.br/revistas/paideia/article/view/7100

REVISTA PAIDÉIA
Paidéia, ano 13, n.20, janeiro/junho de 2019
ISSN 1676-9627 (Impressa)
ISSN 2316-9605 (On-line)
Universidade FUMEC
Faculdade de Ciências Humanas, Sociais e da Saúde.

segunda-feira, abril 20, 2015

Cérebro Musical e Cantigas Brasileiras - Panamby Magazine


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ELVIRA SOUZA LIMA -
NOSSO CÉREBRO MUSICAL

PANAMBY  Magazine
http://www.panambymagazine.com.br


sexta-feira, dezembro 02, 2011

A criança e a cultura

Entrevista de Elvira Souza Lima para a jornalista Michela de Paulo.

- Em entrevista concedida à REVISTA EDUCAÇÃO - EDIÇÃO 147, a sra. afima que atualmente, com relação a educação infantil, a “criança está empobrecida”. A sra acha que a criança também está empobrecida com relação a educação cultural infantil?

Elvira Souza Lima -A criança se empobrece quando ela não encontra condições ou possibilidades de realizar a apropriação da herança cultural que passa de uma geração a outra. Em um mundo em que a aceleração no tempo acaba por inibir ou diminuir práticas humanas fundamentais, a criança pode, muitas vezes, não ter nem o tempo necessário para realizar as práticas da infância necessárias para o seu desenvolvimento.

- O que a sra. quer dizer quando afirma em suas entrevistas que a “criança é um ser de cultura”?

ESL - As pesquisas sobre o desenvolvimento infantil mais recentes, assim como o conhecimento acumulado pela antropologia, revelam que o bebê ao nascer já inicia seu caminho para estabelecer contato com os outros seres humanos e com eles aprender as formas de relacionamento, de expressão das emoções, posturas e gestos, enfim cada bebê em sua cultura vai assumir os comportamentos culturais de seu grupo.

A criança é assim, desde seus primeiros meses de vida, uma pessoa que se constitui como ser de cultura, da cultura em que nasceu. Ao longo da infância , a criança prossegue nesta formação cultural, que é responsável pela identidade e pelo sentimento de pertencimento a um grupo.

- A cultura é sempre ensinada às crianças pelos adultos ou ela pode se desenvolver naturalmente?

ESL - A cultura está no contexto, então, muita coisa a criança aprende através de sua vivÊncia sem depender de um ensino intencional. Por outro lado, os adultos que a rodeiam podem e devem ensinar intencionalmente para a criança. Porém tão importante quanto ensinar, é propiciar vivências culturais. Isto significa levar a criança a espaços públicos onde ocorram eventos, como festas juninas, festivais, contação de histórias, contar experiências próprias de sua infância para a criança, trazer os costumes da família. Cabe ao adulto reduzir o tempo de exposição à televisão e equilibrar com experiências reais do cotidiano.

- A criança pode aprender cultura antes mesmo de começar a escrever? Como?

ESL - A cultura humana tem várias dimensões, a grande parte dela não depende da criança saber escrever. Brincadeiras infantis, as comemorações folclóricas, a música, a interação simbólica, a expressão das emoções são algumas destas dimensões. A cultura letrada, aquela que envolve a escrita depende da aprendizagem da leitura e da escrita. Porém, antes disso podemos desenvolver esta dimensão cultural expondo a criança à leitura de histórias, contação de história dramatizada, teatro.

- E as crianças que não podem ler ou escrever, por limitações físicas e/ou mentais, também podem ter acesso à educação cultural? Como?

ESL - Claro! A formação cultural passa pelos 5 sentidos e pelo movimento. O fato de uma criança ter impedimentos de alguma ordem não impede absolutamente que ela participe da vida de cultura. A cultura, na verdade, forma o cérebro humano, ou seja, o desenvolvimento do cérebro é função da biologia e da cultura. Esta é uma das grandes contribuições da neurociência: ter evidenciado que a vivência cultural transforma o próprio cérebro. Neste sentido podemos dizer que as crianças que têm impedimentos em seu desenvolvimento beneficiam enormemente da cultura.

- Qual o papel da imaginação na educação cultural?

ESL - Imaginação é fundamental, é o elemento chave para a formação da pessoa, A educação cultural existe porque o ser humano é capaz de imaginar, é capaz de se deslocar do que sua percepção traz para ele e inventar outras situações, outras imagens, além da própria percepção. A educação cultural promove a formação de imagens internas, de cenários, narrativas que a pessoa cria em sua mente. É uma das capacidades mais extraordinária da espécie humana, que encontra na infância seu período fértil para o desenvolvimento, fornecendo bases para criações e aprendizagens na vida adulta.

- O que os pais devem fazer para que seus filhos tenham um amplo conhecimento cultural? É necessário sempre realizar diversas atividades, como levá-los ao teatro, museus, oficinas?

ESL - Sim, mas também levar às celebrações da cultura popular, trazer a experiência musical para o cotidiano, estimular o canto e/ou a aprendizagem de um instrumento, trazer para a criança vários gêneros musicais.

- Qual a diferença do papel dos pais e dos professores, na educação cultural das crianças?

ESL - A escola tem a função de oferecer aos alunos as aprendizagens que não podem se realizar na vida cotidiana. A escola deve ter, então, um currículo em que a cultura seja trazida para a criança em suas manifestações que não acontecem na vida cotidiana da criança. Como o nosso país é vasto, tem uma cultura riquíssima e variada, desconhecida de uma região a outra, um dos papeis principais da escola é familiarizar a criança com as manifestações culturais da cada canto do país, com os artistas, com as formas de teatro, enfim, com a diversidade que constitui nosso país. Tem também o papel de trazer elementos da cultura universal, como literatura, por exemplo.

- A coleção de DVDs, lançada pela sra. é destinada somente aos professores? Como é possível adquiri-los?

ESL - Ler se aprende com cultura é uma série de 5 dvds, acompanhados cada um de uma publicação que tem vários componentes. O filme é destinado para qualquer idade. O filme comentado, é dirigido a pais e professores. Tem vários extras que são destinados, também, a adultos que se ocupam da criança. É um produto para família também, não somente para professores.

Dois dos DVDs apresentam contação de história: Historias da Natureza e A árvore que mudou de lugar. Cada um deles vem acompanhado de um livro que a própria criança irá ilustrar. O objetivo é levá-la a criar o cenário e os personagens, exercitando, assim, sua imaginação. São conteúdos que tratam também de valores humanos, como tolerância e solidariedade. Esta coleção foi selecionada para o Guia de Tecnologias Educacionais do MEC. Os DVDs podem ser adquridos na Inter Alia Educação e Cultura. Veja os DVDs no Canal da Editora Inter Alia no YouTube.

informações e pedidos: livros@editorainteralia.com

tel: 11 5083 6043 (São Paulo)


terça-feira, novembro 15, 2011

DESENVOLVER A IMAGINAÇÃO É PRECISO!

Elvira Souza Lima

A imaginação é um componente fundamental das aprendizagens escolares. O aluno quase sempre depende de formular um cenário imagético do que o professor está ensinando, principalmente em relação aos fenômenos científicos, uma vez que poucas vezes o aluno “presencia”, percebe diretamente o que o professor está explicando ou o que aparece nos materiais didáticos.

Pesquisas na área da neurociência têm demonstrado que as crianças são expostas a muitas imagens na vida de hoje e têm, assim, poucas oportunidades de desenvolver sua imaginação. Desta forma, é importante incluir nas realizações da infância a atividade de criar imagens.

Abaixo podemos ver a experiência de criar um cenário, o contexto e a ação de uma história apresentada em forma escrita. Estas histórias podem ser acompanhadas pelo DVD da série Ler se Aprende com Cultura em que elas são contadas por atrizes, mas em que não aparecem informações visuais. Com isto pretende-se, também, desenvolver áreas do cérebro envolvidas na apropriação da leitura e da escrita.







clique nas imagens para aumentar

Editora Inter Alia

série: "Ler se Aprende com Cultura" de Elvira Souza Lima


domingo, novembro 13, 2011

Galeria de Fotos: Burle Marx no Conversa Afiada



A beleza da natureza e a sensibilidade de Burle Max são patrimônios deste nosso país. Como se sabe pelas pesquisas da neurociência, o contato com as plantas faz bem ao ser humano.Achei que todos devem ter acesso a estas belas fotos!

Elvira Souza Lima


segunda-feira, outubro 24, 2011

NEUROCIÊNCIA NA SALA DE AULA: EDUCAÇÃO INFANTIL PARA O SÉCULO XXI

Elvira Souza Lima



Iniciamos em Guarani, Minas Gerais, a introdução de um currículo que tem como eixo o desenvolvimento da função simbólica e da imaginação na criança pequena. Com isto temos a possibilidade de desenvolver redes internas que darão suporte às aprendizagens escolares posteriores sem comprometer a vivência da infância em seus aspectos mais importantes.


Desenhar diariamente, cantar diariamente com o coletivo todo reunido, crianças e adultos, música presente na sala de aula e nos espaços comuns, inclusive no momento da chegada, vivência de fatos científicos, da geometria, da poesia.


Os desenhos das crianças de 5 anos (em folha A3) revelam o domínio e experimentação de texturas, espaço, formas e narrativa. Exercícios diários da imaginação preparam as crianças para a vida, não apenas para o percurso escolar que elas farão. O uso da imaginação já é, e será cada vez mais, um requisito da vida nas próximas décadas.


Para quem tem vindo visitar a escolinha de educação infantil, a reação comum é de admiração pelo clima de alegria e tranquilidade. Devemos isto à competência e entusiasmo das professoras, competência da gestão pedagógica e, também, dos adultos que realizam as tarefas de apoio.

segunda-feira, julho 26, 2010

Permitir que a criança viva a sua infância por Elvira Souza Lima

Podemos iniciar nossa conversa dizendo que toda criança tem direito a viver sua infância. Nesse período, a criança realiza inúmeras aprendizagens que servirão para toda a vida. Muitas delas se efetivam por meio de práticas culturais, que, por sua vez, desempenham papel central, e cabe não apenas à família, mas a vários setores da sociedade, garantir sua presença na vida das crianças.

Em seus primeiros anos de vida, a criança obtém duas conquistas importantes: andar e falar. O período que se segue a isso será marcado pelo desenvolvimento da função simbólica (falar, desenhar, imaginar...). As atividades que predominam nesse período são as que envolvem movimento e criação de significados, fazendo com que a criança se desenvolva como um ser de cultura.

E que atividades são essas? Desenhar, brincar de faz-de-conta, realizar brincadeiras infantis que envolvam personagens e ações imitativas, cantar, dançar, ouvir histórias, poesias e narrativas da cultura local. É muito importante para a criança a vivência das práticas culturais de sua comunidade e região, pois a elas estão ligadas a percepção de si mesma como parte de um grupo e a formação de sua identidade. A experiência com imagens e com sons é uma parte importante na educação da criança pequena, por isso toda criança precisa desenhar, cantar, ouvir música e brincar.

Em seu processo de desenvolvimento, a criança pequena desenha muito. Toda criança vai desenhar indo ou não à escola, ou seja, desenhar faz parte de ser criança. É muito importante que os adultos respeitem essa atividade, porque enquanto a criança está desenhando ela está aprendendo muitas coisas. Para nós, adultos, pode parecer que desenho não é uma coisa séria como aprender a escrever, mas é. O domínio da forma desenhada também é uma das bases do desenvolvimento da escrita.

Todo desenho tem uma ação: para a criança tem sempre uma história no desenho que ela faz. O desenho é uma narrativa: mesmo que para o adulto ele pareça uma representação estática, para a criança ele é ativo, dinâmico, tridimensional. Mesmo que a criança não fale nada enquanto estiver desenhando, ela está "pensando" no que desenha. Então, ao desenhar, a criança trabalha com sua imaginação, cria novas imagens, desenvolve sua memória, organiza sua experiência para compreendê-la. O ato de desenhar não é, simplesmente, uma atividade lúdica, ele é, também, ação de conhecimento. O desenho é, pois, parte constitutiva do processo de desenvolvimento da criança.

A música promove a comunicação entre as pessoas, provoca envolvimento emocional entre elas. Cantar, tocar um instrumento, ouvir música são atividades que fazem bem ao ser humano em qualquer idade. Na infância a música é mais importante ainda, pois contribui para o desenvolvimento da criança. As cantigas infantis possibilitam o desenvolvimento da memória auditiva, do ritmo e da melodia, com realizações que estarão envolvidas na apropriação da leitura e da escrita. (leia mais)


leia o texto completo no Portal SESC -SP aqui






sábado, junho 19, 2010

Le développement culturel des enfants par l'expérience esthétique


Elvira Souza Lima - Le développement culturel
des enfants par l'expérience esthétique


publicado em:

Langages et cultures des enfants de la rue
sous la direction de Stéphane Tessier
Editeur : Karthala (1995)
Collection : Questions d'Enfance



leia aqui

quinta-feira, junho 17, 2010

Entrevista de Elvira Souza Lima para o jornalista Paulo de Camargo - Revista Claudia, Junho 2010

Paulo de Camargo - Qual é, a seu ver, o interesse em preservar um currículo mais rico, onde caibam a música, as artes plásticas, o teatro? Trata-se de uma questão de formar mais globalmente, ter indivíduos mais equilibrados, ou um trabalho pedagógico rico nesse campo também colabora para o desenvolvimento cognitivo?


Elvira Souza Lima - As artes em seu conjunto têm a mesma complexidade que as ciências quando consideramos a vida mental. A neurociência avançou muito na última década revelando um papel insuspeitado que as artes têm no que chamamos de “desenvolvimento cognitivo” .Artes, ciências (todas elas, as duras e as humanas) e os sistemas simbólicos (como a escrita, a linguagem matemática, a musical, a linguagem da física, só para citar algumas) são conhecimentos sistematizados.

Aprendizagens realizadas nas práticas artísticas formam redes neuronais no cérebro que podem ser mobilizadas para aprender as áreas do conhecimento formal. Além disso, a prática de arte forma comportamentos necessários para a aprendizagem dos conhecimentos escolares, como comportamentos de atenção.

Paulo de Camargo - O que há de estudos científicos que comprovam o papel da música no desenvolvimento do cérebro?

Elvira Souza Lima - Há uma produção enorme, tanto nos Estados Unidos, como na Europa. Há evidências de que a música modifica fisicamente o cérebro. Vários neurocientistas, como Oliver Sacks, afirmam que o cérebro de um músico se distingue dos cérebros de pessoas de outras profissões. Como ele diz, se olharmos os cérebros de pessoas de profissões diferentes (por exemplo, de um engenheiro, de um motorista, de um administrador de empresas e de um músico), reconheceríamos o do músico. Uma das partes do cérebro, a responsável pelas trocas entre hemisfério esquerdo e hemisfério direito do cérebro – chamada corpo caloso – é uma das comprovadamente modificadas pela prática de instrumentos musicais.

Paulo de Camargo - A senhora me disse que o cérebro é interdisciplinar. Pode explicar com mais detalhes?

Elvira Souza Lima - Os estudos recentes da neurociência têm revelado como que uma aprendizagem de um conceito de uma área de conhecimento se transforma em instrumento mental para aprender , refletir e solucionar questões de outras áreas de conhecimento. Igualmente, como que práticas de movimento como a capoeira formam redes neuronais que concorrem para desenvolvimento do pensamento espacial, importantes para a aprendizagem da física, da geografia e matemática. O cérebro funciona como um órgão integrado em que, mesmos as áreas especializadas, contribuem conjuntamente para responder a uma demanda interna, como resolver um problema matemático, escrever um texto, compreender um relato científico. Quem aprende a ler música, desenvolve redes neuronais funcionais para a sintaxe. A sintaxe está presente tanta na escrita como na matemática.


Paulo de Camargo - Parece-lhe que, de alguma forma, os jovens de hoje tem de fato um repertório cultural mais restrito, em função da perda de espaço das artes e da música no currículo, especialmente no Ensino Fundamental II e no Médio?

Elvira Souza Lima - Uma função básica para o desenvolvimento do jovem é o desenvolvimento da imaginação. A imaginação depende dos acervos guardados na memória. Pesquisas revelam claramente como a ausência de experiências estéticas não só compromete a formação deste repertório, como, dialeticamente, esta ausência pode levar à mediocridade ou à limitação de estratégias de tomada de decisão. O jovem encontra-se frente ao mundo de trabalho como que desconectado das questões envolvidas nas relações humanas, na capacidade de liderança e na gestão de pessoas, quando em funções de direção e gerência.

É interessante observar que certas iniciativas nos Estados Unidos por parte de neurocientistas aconteceram exatamente em contraposição a uma política educacional que, quando precisa cortar gastos, começa pelo corte às artes.

Paulo de Camargo - A senhora recomenda que os pais prestem mais atenção a esse tema e busquem formações complementares, seja na própria escola, seja nos cursos livres mais qualificados?

Elvira Souza Lima - Sim, é importante que os pais entendam melhor os processos de desenvolvimento dos filhos para ajudar nas tomadas de decisão que fazem na vida das crianças e adolescentes. Ainda consideramos as artes como complementares, às vezes como algo até superficial. No entanto, sabemos hoje que elas são fundamentais na formação da criança e do jovem, com um impacto considerável. Elas podem promover o diferencial na carreira dos filhos futuramente, uma vez que o impacto no desenvolvimento das funções mentais é duradouro, ou seja, permanece para a vida toda. Em outros países, saber tocar um instrumento, ter feito teatro, por exemplo faz parte do currículo para aprovação na seleção de entrada para a universidade.

terça-feira, outubro 02, 2007

De que cor é o rio Amazonas?

"A pergunta parece banal. A resposta, nem tanto!
— O Rio Amazonas tem várias cores. Elas mudam. Veja só, professora.

Foi com essa observação que um professor indígena me explicou a concepção de cor na sua cultura. Para muitos de nós a cor está no objeto: a maçã é vermelha, a árvore é verde, o céu é azul. Nossa percepção visual, construída com a eletricidade, não inclui as variações da incidência da luz natural sobre os objetos, a natureza, as pessoas.

Ao perguntar para uma criança indígena de seis anos de que cor eram as árvores, ela me respondeu:
— Depende.
— Depende de quê?
— Da hora do dia.

Assim me explicou ela: as árvores são verdes durante o dia, mas azul escuro à noite.
— Eu não havia reparado no rio? - perguntou outra mais velha. — Ele sempre muda de cor."

Elvira Souza Lima: De que cor é o rio Amazonas?

leia no site da Editora Moderna