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domingo, julho 05, 2020

A tela e o desenvolvimento humano – Elvira Souza Lima



Elvira Souza Lima é pesquisadora em desenvolvimento humano, com formação em neurociências, psicologia, antropologia e música.


Que impacto tem o computador e outros artefatos tecnológicos no desenvolvimento e na formação humana? São centenas as pesquisa sobre a interação homem e tecnologia. Uma temática muito pesquisada é a interação com os equipamentos tecnológicos com tela.

Tecnologia e infância combinam?

A exposição à tela iluminada (TV, computador, celular, ipad, etc), segundo vários pesquisadores, pode impactar negativamente o desenvolvimento humano. Tanto é que a Associação Nacional de Pediatria dos Estados Unidos recomenda que crianças até dois anos não sejam expostas à tela. Razão: a tela plana interfere no desenvolvimento da visão que acontece ao longo dos dois primeiros anos de vida. Um outro motivo: a limitação que o uso dos equipamentos tecnológicos acabam por acarretar no desenvolvimento da criança, pelo fato de que, frente à televisão ou computador, ela não realiza outras atividades básicas que garantem a formação de memórias a partir das experiências com os outros sentidos e dos movimentos do corpo no espaço. Além, naturalmente, de experiência com os
objetos e pessoas do mundo real.

Há muito que pesquisar sobre o uso da tecnologia, porém é sempre bom lembrar que todo e qualquer equipamento tecnológico faz parte da cultura humana e que o cérebro se desenvolve em função da cultura. O desenvolvimento do cérebro é de natureza biológica e cultural. O cérebro se forma, se desenvolve e amadurece com base na genética da espécie e pelas experiências de vida de cada um. O cérebro tem enorme plasticidade, ou seja, é capaz de se organizar e reorganizar continuamente durante toda a vida do ser humano.

A plasticidade é maior na primeira infância, mas se mantém durante a adolescência e toda a vida adulta. Esta é uma característica importante do desenvolvimento: a possibilidade de modificações e mudanças a qualquer idade. Até na ocorrência de acidentes cerebrais, lesões ou outras condições biológicas adversas, o cérebro é capaz de se reorganizar funcionalmente. Oliver Sacks escreveu extensivamente sobre casos clínicos de patologias e acidentes cerebrais e a capacidade de reorganização do cérebro apresentada por muitos pacientes e inclusive de sua experiência pessoal, como a perda de visão de um olho (O olhar da mente, de Oliver Sacks). Em uma pessoa cega, por exemplo, o cérebro se modifica desenvolvendo mais os sentidos do tato e da audição, dois sentidos em que o cego se apoia para percepção e ações que seriam próprias da área do córtex visual.

Nosso cérebro é, portanto, dinâmico. Conforme nos diz Kandel, prêmio Nobel de Medicina em 2000 (pela descoberta sobre a formação e funcionamento de memórias de curta e de longa duração): “O cérebro não é estático, ele é plástico!” Ele responde às mudanças nos contextos em que a pessoa vive ou frequenta. É o que mostra o documentário Em Busca da Memória.

Ao longo da história cultural do ser humano as invenções, aquisições e produções em cada período histórico suscitam respostas ou diferenciações no cérebro e provocam mudanças significativas em seu funcionamento.

Vejamos o exemplo da escrita. A escrita é uma invenção, é um produto cultural criado pelo ser humano. Não há no cérebro uma área destinada a aprender a ler ou a escrever, como acontece com a fala. Para ler e/ou escrever, o cérebro passa por um processo de mudança formando redes neuronais específicas para compreender os significados ao se ler um texto e para criar significados quando se escreve um texto. Isto acontece precisamente porque, como observamos, não há uma área específica no cérebro para a aprendizagem da leitura e da escrita.


Dehaene, neurocientista francês, um dos maiores especialistas em cérebro e escrita, em seu livro Neurônios da Leitura, esclarece que “ um dos efeitos maiores da escolarização é o aumento da capacidade da memória.” Segundo ele “ há ainda modificações anatômicas como é o caso do corpo caloso que se espessa na pessoa que aprende a ler.”(Dehaene, Neurônios da Leitura, 2012, pg. 227).


A invenção da escrita, a invenção da imprensa e agora a invenção de novos instrumentos tecnológicos e novos usos da tecnologia na vida cotidiana causam impacto na história evolutiva da espécie. E, como mostram as pesquisas da neurociência acumuladas nas últimas décadas, há certamente um impacto no desenvolvimento e e funcionamento do cérebro, porém, não a ponto de que, após cinco mil anos de existência da escrita, o cérebro dispense ensino, exercício e sistematização para se tornar um cérebro
capaz de ler e de escrever. O cérebro se modifica anatomicamente, mas destas modificações não resultam que ler e escrever se desenvolvam naturalmente como a fala.


A leitura e a escrita precisam ser ensinadas e é necessário muito estudo para que uma pessoa, em qualquer idade, se aproprie da estrutura básica do sistema linguístico de qualquer língua escrita, alfabética ou ideográfica.


Para ler, diz ele, há que se formar uma nova estrutura no cérebro, que ele chamou de “boîte aux lettres” (tradução livre, caixa de letras). Esta estrutura possibilita aprender a lidar com o sistema simbólico da escrita, em qualquer língua. Ela é resultante da plasticidade do cérebro e revela que uma invenção cultural impacta e promove modificações no cérebro. É o que acontece, também, com instrumentos tecnológicos e com o uso da tecnologia.


Tecnologia e cérebro


Tecnologia sempre houve na espécie humana: o desenvolvimento tecnológico se realiza pela transmissão cultural em que uma geração passa à seguinte os conhecimentos, metodologias e instrumentos. O extraordinário desenvolvimento da tecnologia do século XX se deu, primeiramente, pela ampliação do acesso à escolarização. E trouxe, como consequência, situações novas não experimentadas pela espécie humana anteriormente, como, por exemplo, o domínio no manejo dos aparatos tecnológicos. Hoje os mais novos, crianças e jovens, aprendem e usam instrumentos tecnológicos com maior destreza do que os adultos. Maior destreza não significa, no entanto, maior conhecimento e maior capacidade de formar conceitos e trabalhar mentalmente com informações das áreas de conhecimento formal.


Daí podemos inferir que novos produtos culturais têm um impacto no cérebro e não poderia ser diferente pois o desenvolvimento do cérebro é função da cultura, incluindo, naturalmente, os contextos contemporâneos disponíveis ao ser humano, presenciais e à distância.






revista Carta Capital - outubro 2014
































domingo, março 26, 2017

Atenção e Distração por Elvira Souza Lima




"Fazer com que os alunos prestem atenção em sala de aula é um desafio comum a muitos professores, nos vários níveis de ensino. Entender o funcionamento da atenção, assim como identificar as razões pelas quais acontece a distração, tem sido um dos campos de estudo da neurociência. Consideramos, hoje, importante compreender a dinâmica da atenção pela contribuição que tal conhecimento traz à docência. E, também, para não se incorrer em diagnósticos equivocados de déficit de atenção e hiperatividade."

Elvira Souza Lima



Revista Presença Pedagógica n.96
novembro / dezembro 2010


quinta-feira, junho 16, 2016

Elvira Souza Lima - Memória - Todos Podem Aprender a Ler e a Escrever


O papel da memória nas aprendizagens escolares, a educação da atenção e as atividades de estudo, os processos de aprendizagem e os mecanismos e tipos de memória, as contribuições da neurociência, a organização do currículo, com Elvira Souza Lima.



terça-feira, dezembro 28, 2010

Atenção e Distração por Elvira Souza Lima

"Fazer com que os alunos prestem atenção em sala de aula é um desafio comum a muitos professores, nos vários níveis de ensino. Entender o funcionamento da atenção, assim como identificar as razões pelas quais acontece a distração, tem sido um dos campos de estudo da neurociência. Consideramos, hoje, importante compreender a dinâmica da atenção pela contribuição que tal conhecimento traz à docência. E, também, para não se incorrer em diagnósticos equivocados de déficit de atenção e hiperatividade."

artigo publicado na


Revista Presença Pedagógica n.96
novembro / dezembro 2010

quinta-feira, julho 22, 2010

Cérebro humano e educação hoje: entrevista com Elvira Souza Lima




Revista Presença Pedagógica nº 94
(edição julho/agosto de 2010)

ENTREVISTA

Cérebro humano e educação hoje
Elvira Souza Lima


Apresentação:

Leitores de telas
por Rosangela Guerra

Por volta das 19 horas, eles chegam à faculdade, muitos com o fone do Ipod no ouvido. Entram no laboratório de informática para a aula que se estende até as 22h35min, com um breve intervalo de 20 minutos entre o primeiro e o segundo tempo.

Nem sempre o frescor da juventude consegue apagar as marcas das urgências do dia em que quase tudo “é para ontem”. Muitos trabalham como operadores de telemarketing. Eles contam que, para executar o serviço, abrem em média cerca de cinco telas de computador para atender a cada cliente, que não raro têm reclamações de sobra para fazer. “Pois não, senhora!”, dizem automaticamente, já sabendo que as ligações são gravadas.

O fato de cursarem a faculdade é motivo de orgulho. Afinal, são os primeiros de suas famílias a chegarem ao Ensino Superior. Navegantes do espaço virtual, frequentam diversas comunidades, publicam suas opiniões em blogs e exercem a síntese nos 140 caracteres do Twitter. Fazem tudo isso ao mesmo tempo e, muitas vezes, durante as aulas.

Essa atenção dispersa entre aqui e ali é considerada uma habilidade natural da juventude de hoje. Mas será que os neurônios aguentam esse jeito de viver? A educadora e pesquisadora em neurociência Elvira Souza Lima, entrevistada nesta edição, responde que, muito provavelmente, esta não é a forma necessária para a aprendizagem dos conhecimentos escolares.

Uma conversa com Elvira sobre neurociência e educação pode ir longe, para proveito dos professores. Por esse motivo, convidamos a pesquisadora para escrever uma série de artigos sobre o tema, que passará a ser publicada em Presença Pedagógica.


domingo, maio 30, 2010

Memória e Atenção

Elvira Souza Lima


ATENÇÃO (1)


Vamos discutir a atenção a partir de três perguntas:


1. Como acontece a atenção?



A atenção acontece, em parte, pela capacidade que o ser humano tem de regular a sua percepção, eliminando alguns estímulos para se concentrar em outros. Ou seja, a atenção é consequência de um processo de escolha, voluntária ou involuntária, entre diferentes possibilidades da percepção. A percepção é realizada por um ou mais órgãos dos sentidos.



Segundo as pesquisas da neurociência, a atenção acontece pela formação de redes neuronais responsáveis pelos estados de alerta, de foco e concentração e, finalmente, de atenção executiva. Esta última é condição para as aprendizagens escolares.



Atenção é um processo que se constitui pela integração de fatores biológicos e culturais. A atenção é modulada, também, pelas emoções.



2. Qual é o papel da atenção na aprendizagem?



Sem atenção não há formação de memórias e sem formação de memórias não há aprendizagem dos conhecimentos escolares. No cérebro, há três níveis de formação do comportamento de atenção (Izquierdo, 2002; Gazzaniga, 1998; Larry, 2003):



a) O estado de alerta;

b) O foco e a concentração;

c) A atenção executiva.



O estado de alerta é condição inicial para a concentração em um tema de estudo. O planejamento do professor e a adequação da tarefa ao período de desenvolvimento do aluno são fatores que influenciam o estado de alerta. Além desse primeiro momento, a atividade proposta deve levar, pela motivação, ao engajamento do aluno com o conhecimento. O professor depende da manutenção da atenção do aluno para que a aprendizagem aconteça. Com a manutenção da atenção, chega-se ao foco e, daí, à concentração. Deste nível, o aluno pode se engajar nos processos da atenção executiva em que relações são feitas (em nível neuronal), o que levaria à formação de memórias.



3. Existem maneiras de estimular a atenção?



Comportamentos de atenção se formam desde a educação infantil e, para tanto, precisam fazer parte do currículo. Prestar atenção, focar, manter-se atento, utilizar estratégias que facilitam a atenção são comportamentos que podem (e devem) ser ensinados e praticados com as crianças desde cedo.



A cultura é muito importante na infância para a formação de comportamentos de atenção, uma vez que as práticas culturais da infância exigem, exercitam e qualificam os estados de atenção. As brincadeiras infantis, a música, o desenho e a dramatização são situações próprias do desenvolvimento infantil que têm como característica central a mobilização e a permanência de estados de alerta e de foco da atenção.



As artes, mais antigas que as práticas pedagógicas escolares, têm em sua própria essência a condição de formar estados de atenção, pois sem eles não se toca instrumento, não se dança, não se desenha, não se compõe música.



Dessa forma, a atenção necessária para que os alunos aprendam resulta de uma proposta curricular que tenha como objetivo trabalhar não somente os conhecimentos formais, mas também as formas de atividade humana que permitem ao ser humano aprender tais conhecimentos.


(1) em Atenção e Desatenção, da autora.