sexta-feira, junho 18, 2010

Elvira Souza Lima no site Educar Para Crescer


A memória e a aprendizagem - Educar para Crescer

Como a memória funciona?

"Somos aquilo que recordamos", conceitua Iván Izquierdo, professor de Neuroquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele dá um exemplo: nenhum texto é compreendido se não se lembra o significado das palavras e a estrutura do idioma utilizado. Tudo isso precisa estar registrado no cérebro para ser resgatado no momento oportuno. A memória, enfatiza Elvira Lima, é a reprodução mental das experiências captadas pelo corpo por meio dos movimentos e dos sentidos. Essas representações são evocadas na hora de executar atividades, tomar decisões e resolver problemas, na escola e na vida."

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A importância da boa alimentação - Educar para Crescer

texto de Paula Desgualdo

Reconhecer cores, contar uma história com começo, meio e fim, compreender o que os outros falam, deduzir ordens de grandeza - tudo isso faz parte do desenvolvimento nervoso de uma criança. E o sucesso dessas tarefas, que equivocadamente parecem tão simples aos olhos de um adulto, tem tudo a ver com aquilo que os pequenos comem. "Sem uma alimentação adequada, capaz de garantir o aporte de nutrientes como ferro, o foco e a concentração ficam comprometidos. Daí é mais difícil armazenar novas memórias", explica a pesquisadora em desenvolvimento humano Elvira Souza Lima, consultora internacional em neurociência e educação de várias instituições de renome.

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Lembre-se: sem memória não há aprendizagem


por: Paola Gentile (reportagem) e Cynthia Costa (edição web)

Durante séculos, na escola, memorizar foi sinônimo de decorar nomes, datas e fórmulas que seriam exigidos nas provas, nas chamadas e nos testes. Com base nos estudos sobre o processo de aprendizagem da criança, porém, concluiu-se que a decoreba era inimiga da educação. E a memória - confundida com repetição - foi posta de castigo.

Um grande erro. A memória é a base de todo o saber - e, por que não dizer, de toda a existência humana, desde o nascimento. Como tal, deve ser trabalhada e estimulada. "É ela que dá significado ao cotidiano e nos permite acumular experiências para utilizar durante toda a vida", afirma a psicóloga e antropóloga Elvira Souza Lima, especialista em desenvolvimento humano.

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quinta-feira, junho 17, 2010

Entrevista de Elvira Souza Lima para o jornalista Paulo de Camargo - Revista Claudia, Junho 2010

Paulo de Camargo - Qual é, a seu ver, o interesse em preservar um currículo mais rico, onde caibam a música, as artes plásticas, o teatro? Trata-se de uma questão de formar mais globalmente, ter indivíduos mais equilibrados, ou um trabalho pedagógico rico nesse campo também colabora para o desenvolvimento cognitivo?


Elvira Souza Lima - As artes em seu conjunto têm a mesma complexidade que as ciências quando consideramos a vida mental. A neurociência avançou muito na última década revelando um papel insuspeitado que as artes têm no que chamamos de “desenvolvimento cognitivo” .Artes, ciências (todas elas, as duras e as humanas) e os sistemas simbólicos (como a escrita, a linguagem matemática, a musical, a linguagem da física, só para citar algumas) são conhecimentos sistematizados.

Aprendizagens realizadas nas práticas artísticas formam redes neuronais no cérebro que podem ser mobilizadas para aprender as áreas do conhecimento formal. Além disso, a prática de arte forma comportamentos necessários para a aprendizagem dos conhecimentos escolares, como comportamentos de atenção.

Paulo de Camargo - O que há de estudos científicos que comprovam o papel da música no desenvolvimento do cérebro?

Elvira Souza Lima - Há uma produção enorme, tanto nos Estados Unidos, como na Europa. Há evidências de que a música modifica fisicamente o cérebro. Vários neurocientistas, como Oliver Sacks, afirmam que o cérebro de um músico se distingue dos cérebros de pessoas de outras profissões. Como ele diz, se olharmos os cérebros de pessoas de profissões diferentes (por exemplo, de um engenheiro, de um motorista, de um administrador de empresas e de um músico), reconheceríamos o do músico. Uma das partes do cérebro, a responsável pelas trocas entre hemisfério esquerdo e hemisfério direito do cérebro – chamada corpo caloso – é uma das comprovadamente modificadas pela prática de instrumentos musicais.

Paulo de Camargo - A senhora me disse que o cérebro é interdisciplinar. Pode explicar com mais detalhes?

Elvira Souza Lima - Os estudos recentes da neurociência têm revelado como que uma aprendizagem de um conceito de uma área de conhecimento se transforma em instrumento mental para aprender , refletir e solucionar questões de outras áreas de conhecimento. Igualmente, como que práticas de movimento como a capoeira formam redes neuronais que concorrem para desenvolvimento do pensamento espacial, importantes para a aprendizagem da física, da geografia e matemática. O cérebro funciona como um órgão integrado em que, mesmos as áreas especializadas, contribuem conjuntamente para responder a uma demanda interna, como resolver um problema matemático, escrever um texto, compreender um relato científico. Quem aprende a ler música, desenvolve redes neuronais funcionais para a sintaxe. A sintaxe está presente tanta na escrita como na matemática.


Paulo de Camargo - Parece-lhe que, de alguma forma, os jovens de hoje tem de fato um repertório cultural mais restrito, em função da perda de espaço das artes e da música no currículo, especialmente no Ensino Fundamental II e no Médio?

Elvira Souza Lima - Uma função básica para o desenvolvimento do jovem é o desenvolvimento da imaginação. A imaginação depende dos acervos guardados na memória. Pesquisas revelam claramente como a ausência de experiências estéticas não só compromete a formação deste repertório, como, dialeticamente, esta ausência pode levar à mediocridade ou à limitação de estratégias de tomada de decisão. O jovem encontra-se frente ao mundo de trabalho como que desconectado das questões envolvidas nas relações humanas, na capacidade de liderança e na gestão de pessoas, quando em funções de direção e gerência.

É interessante observar que certas iniciativas nos Estados Unidos por parte de neurocientistas aconteceram exatamente em contraposição a uma política educacional que, quando precisa cortar gastos, começa pelo corte às artes.

Paulo de Camargo - A senhora recomenda que os pais prestem mais atenção a esse tema e busquem formações complementares, seja na própria escola, seja nos cursos livres mais qualificados?

Elvira Souza Lima - Sim, é importante que os pais entendam melhor os processos de desenvolvimento dos filhos para ajudar nas tomadas de decisão que fazem na vida das crianças e adolescentes. Ainda consideramos as artes como complementares, às vezes como algo até superficial. No entanto, sabemos hoje que elas são fundamentais na formação da criança e do jovem, com um impacto considerável. Elas podem promover o diferencial na carreira dos filhos futuramente, uma vez que o impacto no desenvolvimento das funções mentais é duradouro, ou seja, permanece para a vida toda. Em outros países, saber tocar um instrumento, ter feito teatro, por exemplo faz parte do currículo para aprovação na seleção de entrada para a universidade.

domingo, maio 30, 2010

Memória e Atenção

Elvira Souza Lima


ATENÇÃO (1)


Vamos discutir a atenção a partir de três perguntas:


1. Como acontece a atenção?



A atenção acontece, em parte, pela capacidade que o ser humano tem de regular a sua percepção, eliminando alguns estímulos para se concentrar em outros. Ou seja, a atenção é consequência de um processo de escolha, voluntária ou involuntária, entre diferentes possibilidades da percepção. A percepção é realizada por um ou mais órgãos dos sentidos.



Segundo as pesquisas da neurociência, a atenção acontece pela formação de redes neuronais responsáveis pelos estados de alerta, de foco e concentração e, finalmente, de atenção executiva. Esta última é condição para as aprendizagens escolares.



Atenção é um processo que se constitui pela integração de fatores biológicos e culturais. A atenção é modulada, também, pelas emoções.



2. Qual é o papel da atenção na aprendizagem?



Sem atenção não há formação de memórias e sem formação de memórias não há aprendizagem dos conhecimentos escolares. No cérebro, há três níveis de formação do comportamento de atenção (Izquierdo, 2002; Gazzaniga, 1998; Larry, 2003):



a) O estado de alerta;

b) O foco e a concentração;

c) A atenção executiva.



O estado de alerta é condição inicial para a concentração em um tema de estudo. O planejamento do professor e a adequação da tarefa ao período de desenvolvimento do aluno são fatores que influenciam o estado de alerta. Além desse primeiro momento, a atividade proposta deve levar, pela motivação, ao engajamento do aluno com o conhecimento. O professor depende da manutenção da atenção do aluno para que a aprendizagem aconteça. Com a manutenção da atenção, chega-se ao foco e, daí, à concentração. Deste nível, o aluno pode se engajar nos processos da atenção executiva em que relações são feitas (em nível neuronal), o que levaria à formação de memórias.



3. Existem maneiras de estimular a atenção?



Comportamentos de atenção se formam desde a educação infantil e, para tanto, precisam fazer parte do currículo. Prestar atenção, focar, manter-se atento, utilizar estratégias que facilitam a atenção são comportamentos que podem (e devem) ser ensinados e praticados com as crianças desde cedo.



A cultura é muito importante na infância para a formação de comportamentos de atenção, uma vez que as práticas culturais da infância exigem, exercitam e qualificam os estados de atenção. As brincadeiras infantis, a música, o desenho e a dramatização são situações próprias do desenvolvimento infantil que têm como característica central a mobilização e a permanência de estados de alerta e de foco da atenção.



As artes, mais antigas que as práticas pedagógicas escolares, têm em sua própria essência a condição de formar estados de atenção, pois sem eles não se toca instrumento, não se dança, não se desenha, não se compõe música.



Dessa forma, a atenção necessária para que os alunos aprendam resulta de uma proposta curricular que tenha como objetivo trabalhar não somente os conhecimentos formais, mas também as formas de atividade humana que permitem ao ser humano aprender tais conhecimentos.


(1) em Atenção e Desatenção, da autora.


terça-feira, maio 18, 2010

Ensino da letra cursiva

Folha Online: Ensino da letra cursiva para crianças em alfabetização divide a opinião de educadores

Terça-feira, 18 de maio de 2010

HÉLIO SCHWARTSMAN

articulista da Folha



"Deve-se ou não exigir que as crianças escrevam com letra cursiva? A questão, que divide educadores e semeia insegurança entre pais, está --ao lado da pergunta sobre o ensino da tabuada-- entre as mais ouvidas pela consultora em educação e pesquisadora em neurociência Elvira Souza Lima. A resposta, porém, não é trivial. [...]Para Elvira Souza Lima, que prefere não tomar partido na controvérsia, "os processos de desenvolvimento na infância criam a possibilidade da escrita cursiva". A pesquisadora explica que crianças desenhando formas geométricas, curvas e ângulos são um sério candidato a universal humano. Recrutar essa predisposição inata para ensinar a cursiva não constitui, na maioria dos casos, um problema. Trata-se antes de uma opção pedagógica e cultural.

Souza Lima, entretanto, lança dois alertas. O tempo dedicado a tarefas complementares como a cópia de textos e exercícios de caligrafia não deve exceder 15% da carga horária. No Brasil, frequentemente, elas ocupam bem mais do que isso.

Ainda mais importante, não se deve antecipar o processo de ensino da escrita. Se se exigir da criança que comece a escrever antes de ela ter a maturidade cognitiva e motora necessárias (que costumam surgir em torno dos sete anos) o resultado tende a ser frustração, o que pode comprometer o sucesso escolar no futuro."

leia o artigo completo aqui

terça-feira, novembro 17, 2009

Projeto Beraba


Escrever é direito de todos


O Projeto Beraba destina-se à apropriação da língua escrita nos vários níveis de escolarização.

Dois módulos iniciais estarão disponíveis em janeiro de 2010. Eles destinam-se à apropriação inicial da escrita, incluindo as séries iniciais do Ensino Fundamental. Um para as crianças que estão no primeiro ciclo ou nos 3 anos iniciais, na idade correta. O Segundo se destina aos alunos que estão no ensino Fundamental há 2 anos ou mais e não estão escrevendo.

BERABA Escrever dos 6 aos 8 anos
Este módulo é destinado ao ensino da escrita nas séries iniciais.

BERABA Módulo 2: "O que fazer depois dos 8 anos para que o aluno escreva"


segunda-feira, novembro 16, 2009

A criança e a educação fundamental de 9 anos (*)

Elvira Souza Lima

Estender a obrigatoriedade do período de escolarização da educação fundamental para 9 anos é uma tendência universal. A matrícula obrigatória da criança com seis anos completos na educação fundamental é um fato bastante comum na educação mundial.

A infância é um período de desenvolvimento da espécie humana, cuja importância vai ficando cada vez mais evidente à medida que avançam os conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro, mais especificamente, sobre a complexidade deste desenvolvimento nos primeiros anos da infância.

As descobertas na área da neurociência já são tão importantes que chegam a afetar a natureza de currículos da educação infantil em alguns países. É o caso, por exemplo, da França, que introduziu um currículo para a infância apoiado em pilares diferenciados dos que nortearam a educação da infância durante a maior parte do século XX. Nesse novo currículo, as práticas culturais da infância ganham relevo e o tempo é distribuído de forma que as atividades que envolvam música e movimento sejam equiparadas em importância às atividades mais especificamente voltadas para a apropriação da leitura e a escrita.

Busca-se, assim, uma escolarização que vise à formação da criança enquanto ser de cultura.

5 ou 6 anos?

As matrículas efetuadas para o 1º ano do ensino fundamental de 9 anos nos vários estados e municípios brasileiros utilizam critérios diferentes quanto à idade das crianças, sendo que em várias localidades são matriculadas crianças que não completaram 6 anos. Nestas situações, encontramos crianças que completarão 6 anos até 31 de março, 30 de junho ou até mesmo em 31 de dezembro.

Identificar as idades reais é importante, pois há diferenças sensíveis no desenvolvimento de uma criança que inicia o primeiro ano com 6 anos completos e aquela que passará parte ou todo o primeiro ano com 5 anos. Diferenças serão encontradas na oralidade, nos processos de atenção, nas formas de percepção, na perícia dos movimentos, no exercício da função simbólica.

O desenho das figuras geométricas e as possibilidades de registro também diferem: a criança de 5 anos exercita o traçado que a criança de 6 anos já realiza com maior perícia. A criança de 5 anos está desenvolvendo processos que já se tornaram aquisição na criança de 6 anos. Dessa forma, o planejamento da ação didática deverá levar em consideração as especificidades de um período da infância em que as etapas do processo de desenvolvimento biológico e cultural demandam situações pedagógicas diferenciadas.

Estruturas para o comportamento presente e estruturas para o comportamento futuro

Sob a perspectiva da neurociência e da teoria cultural-histórica do desenvolvimento humano, a espécie humana se caracteriza pela formação de redes neuronais e pelo desenvolvimento de funções que servem a propósitos do desenvolvimento em um período, ao mesmo tempo em que são base para o desenvolvimento futuro. Por exemplo, a brincadeira de faz-de-conta faz parte do desenvolvimento da função simbólica no período dos 3 aos 6 anos. As aprendizagens necessárias para se apropriar da leitura e da escrita, da linguagem matemática, assim como da física, da química e da música, se apóiam na função simbólica. Ou seja, aprendizagens que serão realizadas nos períodos subseqüentes, dos 7 aos 12 anos, terão tido componentes constituídos no período dos 3 aos 6 anos.

Assim, a brincadeira em suas várias formas e as práticas culturais da infância, que envolvem desenho, música e dança, proporcionarão oportunidades únicas de desenvolvimento e aprendizagens em períodos posteriores. Brinquedos e brincadeiras, músicas e poesias, festas e rituais são oportunidades para o desenvolvimento cultural da criança. A identidade e a possibilidade de se reconhecer no grupo são fatores importantes de confiança em si mesma, gerando iniciativa e autonomia em suas ações.

Muitas das condições que a criança precisa desenvolver para aprender a ler e a escrever, a se apropriar dos conhecimentos da matemática, das ciências, da história e dos outros conteúdos escolares são resultantes das práticas de infância. Assim, a criança “cria” condições de aprendizagem dos conhecimentos escolares através das brincadeiras, da prática cotidiana com a música, das atividades gráficas e de modelagem.

No processo de escolarização, para que a criança efetivamente se aproprie dos conhecimentos escolares ela dependerá do ensino dos conteúdos, do ensino das atividades de estudo e dependerá, também, de um currículo que inclua os conhecimentos formais, isto é, as ciências, as artes e os sistemas simbólicos, como a escrita, a linguagem matemática.

Levanta-se, então, a questão do planejamento. O planejamento precisa atender à diversidade própria da espécie e organizar, assim, o tempo de docência para as atividades centrais e as atividades complementares. O planejamento deve, também, incluir alternativas que poderão ser utilizadas para apoiar a aprendizagem de crianças que apresentem alguma lacuna ou fragmentação durante o processo de apropriação do conhecimento.

O planejamento diferenciado (1) é uma possibilidade para atender tanto as especificidades dos processos de desenvolvimento das crianças de 5, 6 e 7 anos nos anos iniciais, bem como resolver situações de não aprendizagem que ocorrem com freqüência neste período. Outra possibilidade é utilizar este tipo de planejamento para evitar situações em sala de aula que não levem à apropriação do conhecimento formal.

A educação para o mundo contemporâneo requer ênfase em alguns aspectos que não foram tão urgentes em outros tempos. Pensar criativamente é requisito para todos. Conhecimento é necessário, portanto há que haver docência de conteúdos. Estudar é necessário, caso contrário não há possibilidade de formação de memórias de longa duração.

O desafio da escola de hoje é formar a pessoa de hoje e o cidadão para a sociedade das próximas décadas.

(*) Texto original: A criança de 6 anos chega ao ensino fundamental, de Elvira Souza Lima
Inter Alia Comunicação e Cultura, São Paulo. livros@editorainteralia.com
(1) ver Planejamento Diferenciado, de Elvira Souza Lima, pela editora acima.

sexta-feira, agosto 28, 2009

segunda-feira, agosto 10, 2009

Os Pilares da Formação Humana I -entrevista com Elvira Souza Lima

Interativo em Revista- fevereiro/março/abril 2008

O processo educativo é complexo e fortemente marcado pelas variáveis sociais e pedagógicas. Segundo Morin (2001), o objetivo da educação não é o de somente transmitir conhecimento, mas criar um espírito para toda a vida, e ensinar é viver em transformações consigo próprio e com os outros. Para esclarecer melhor esse processo iniciamos, nesta edição, uma série de matérias sobre os cinco pilares que norteiam o processo de formação do ser humano: percepção, memória, atenção, pensamento e imaginação. Quem nos explica, é Elvira Souza Lima, antropóloga, psicóloga e professora na Hofstra University, em Nova Yorque, EUA, e na Universidade de Salamanca, na Espanha. Iniciamos está série pela percepção.


Interativo: O que é percepção? Como acontece a percepção?

Elvira: A percepção é efetuada pelo cérebro a partir de elementos que a ele são transmitidos pelos órgãos dos sentidos externos. Ou seja, é o cérebro que processa as informações gráficas da escrita e o conteúdo de um trecho lido, faz isso a partir das informações que chegam transmitidas pelo órgão do sentido da visão. Cada um dos órgãos dos sentidos tem suas especificidades,porém internarmente um sentido "colabora" com o outro para efetivação da percepção. Assim uma pessoa cega desenvolve o sentido do tato e da audição com uma complexidade e sensibilidade maiores do que uma pessoa que enxerga. Há como que uma compensação interna.



Interativo: Como o cérebro não pode registrar e responder tudo o que se apresenta, a percepção é, de certa forma, seletiva. Quais são os fatores que influenciam nesta seleção? Dê um exemplo de percepção seletiva.

Elvira: A percepção se realiza na espécie principalmente pela mobilização de um dos 5 sentidos. Entre os sentidos há seleção, uma vez que não podemos responder a tudo. Às vezes os sentidos se combinam para uma percepção com mais informações, por exemplo, como prestar atenção ao movimento (visão) e som, Como ao assistirmos um espetáculo de dança. Porém, há flutuações entre prestar mais atenção ao movimento do que à música. No exercício de um mesmo sentido também há seleção: não escutamos todos os sons e ruídos que acontecem simultaneamente, geralmente focamos a atenção em um, às vezes um som pode interferir na percepção de outro. Por vezes nem nos damos conta de que algo mais está soando, se ficarmos absortos em uma peça musical. Os fatores que influenciam ou determinam a percepção são de várias ordens. A experiência pessoal, o contexto cultural, as disposições da pessoa, seus interesses, as pressões sociais, o estado físico, as emoções enfim, o que se percebe e o que se deixa de lado são definidos por um conjunto de elementos. O livre arbítrio também conta: a pessoa toma decisões e pode, dependendo de seu nível de atenção, dirigir a sua própria percepção.


Interativo: O contexto social em que se vive influencia no desenvolvimento da percepção?

Elvira: Com certeza. O desenvolvimento dos órgãos do sentido acontece em função do meio e a cultura influencia muito na formação de padrões perceptivos. O mesmo acontece com as artes: as atividades artísticas dependem de uma educação dos sentidos,ou seja, a arte direciona, qualifica e promove a sofisticação no uso de um sentido. Por exemplo, a música desenvolve a percepção auditiva como o desenho e a pintura desenvolvem a percepção visual. Para o teatro a visão e a audição são de fundamental importância, assim como o é o movimento. Pessoas que vivem na floresta ou em contato com a natureza desenvolvem a percepção visual a níveis de grande complexidade quanto à luz e sombra, enquanto que pessoas que cresceram em ambientes com luz artificial desenvolvem padrões distintos uma vez que geralmente não lidam com a ausência total de luz (a iluminação noturna é uma constante e uma possibilidade sempre a mão, com a luz elétrica) . Como o contexto é central no desenvolvimento da percepção, a responsabilidade das pessoas que educam as crianças e jovens é grande. Seja na escola, na família ou em outra grupo social, a criança depende de incentivos constantes para desenvolver a percepção. As formas de arte como a música, o teatro a dança, o desenho, a pintura são fundamentais na formação da criança. A educação dos sentidos promove a atenção, que garante a percepção e, assim, a ampliação dos acervos de memória; Esses acervos estão presentes em toda vida da pessoa. As aprendizagens escolares dependem da percepção. A partir da percepção se constroem estados de atenção, esses absolutamente necessários para as aprendizagens escolares. A mobilização da percepção na escola depende primordialmente da didática e do currículo.

Os Pilares da Formação Humana II - entrevista com Elvira Souza Lima

Interativo em Revista maio/junho/julho 2008

A segunda matéria sobre os cinco pilares que norteiam a formação humana trata sobre o papel da memória. A antropóloga, psicóloga e professora na Hosfstra University, em Nova Iorque, EUA, e na Universidade de Salamanca, na Espanha, Elvira Souza Lima é quem nos explica sobre esses pilares e aborda a memória como um deles.


Interativo: Existe relação entre memória e experiência?

Elvira: Cada um de nós tem muitas memórias guardadas. Na vida, tudo o que se faz envolve a memória. Nosso cérebro é capaz de formar diferentes tipos de memória a partir das experiências de vida de cada um.

O planejamento e a avaliação de nossos atos também envolve os vários tipos de memória.

Vejamos um exemplo:

Quando a criança brinca, cria novas memórias. Na brincadeira, ela faz seqüências de movimentos coreografados e guarda estas seqüências na memória. Quando brincar novamente, ela vai evocar, vai trazer de volta essas memórias que têm grande permanência no cérebro. Com as brincadeiras, a criança aprende a planejar, antecipar, ouvir, argumentar, tomar decisões.

Forma, assim, estruturas de planejamento que utilizará mais tarde em sua vida; inclusive, para estudar e apreender os conhecimentos escolares.


Interativo: Quais são os tipos de memória?

Elvira: Quanto ao tempo de permanência no cérebro, temos dois tipos: a memória de curta duração e a de longa duração, que determina por quanto tempo o conteúdo ensinado permanece no cérebro.
A memória de curta duração permanece pouco tempo no nosso cérebro. Ela possibilita pensar, planejar e executar uma ação.

As memórias de longa duração têm permanência no cérebro, ficam guardadas e podem ser evocadas.

Para guardar as regras de um jogo, utilizamos a memória de longa duração.
Assim, toda vez que formos jogar uma partida, buscamos na memória de longa duração as regras, ou seja, como se faz, a seqüência do jogo.

Então, para aprender, o aluno precisa mobilizar tanto a memória de curta duração como a de longa duração pois, se mobilizar apenas a de curta duração, não será suficiente.

Quanto à sua natureza, as memórias podem ser explícita, implícita e operacional. A memória explícita pode ser episódica ou semântica. A memória explícita episódica é a memória cronológica, que situa os acontecimentos no tempo. A memória explícita semântica é a dos conteúdos que podem ser explicitados, verbalizados, declarados, daí ela ser, também, chamada de “declarativa”.

À Educação escolar interessam, particularmente, a memória explícita e a operacional


Interativo: Existe uma maneira de o aluno acadêmico aprender a criar novas memórias?

Elvira: As aprendizagens escolares dependem da formação de memórias de longa duração. Essas memórias, por sua vez, dependem da realização de atividades específicas. São as chamadas atividades de estudo. É preciso que estas atividades sejam ensinadas às crianças desde o início do ensino fundamental, porque elas não se formam espontaneamente.

Então, para o professor levar o aluno a formar memórias de longa duração, ele precisa ensinar o conteúdo e as atividades humanas necessárias para se apropriar deste conteúdo. Uma destas atividades é o registro. Registrar é uma atividade de estudo. Para anotar, o aluno precisa observar e decidir o que vai registrar. Com isso, ele foca atenção e se concentra. Atenção e concentração são condições necessárias para formar novas memórias. O registro tanto ajuda a formar memórias, como é útil para evocá-las posteriormente; ele foca atenção e se concentra.

Quando a professora pedir novamente uma atividade de registro, a criança já vai conhecer a metodologia. É uma memória que fica disponível para ser evocada à ação em qualquer situação escolar.
Um aluno que aprende a estudar nos primeiros anos da educação fundamental, aprende a planejar ou a trabalhar com o conhecimento e com as fontes de conhecimento. Ele terá autonomia como estudante, saberá orientar sua atenção em sala de aula.


Interativo: Como a memória é constituida?

Elvira: Para que se criem novas memórias, é necessário, primeiramente, atenção.

Sem atenção, ou os órgãos dos sentidos não enviam imagens e informações para o cérebro, para serem processadas, ou o cérebro falha em processar o que chega, em virtude da dispersão.
Quando o aluno não presta atenção, ele não forma memórias dos conteúdos que são ensinados.

As aprendizagens escolares dependem da atenção e da formação de memórias de longa duração. Quando o planejamento do professor mobilizar somente a memória de curta duração, o aluno usará apenas esse tipo de memória, e vai esquecer rapidamente o que o professor ensinou. Por isto, acontece o fato de um aluno fazer uma atividade em sala de aula e dois dias depois não só não consegue fazer , como parece que nunca viu o conteúdo. Não é somente o currículo que leva à formação de memórias; o aluno precisa ser ensinado e precisa praticar as atividades (de estudo) que permitem ao cérebro formar memórias.

sexta-feira, agosto 07, 2009

Os Pilares da Formação Humana III - entrevista com Elvira Souza Lima

INTERATIVO em Revista - FEMA , Agosto/Setembro/ Outubro 2008

Interativo : Para encerrar essa série de matérias sobre os Pilares da Formação Humana, a antropóloga, psicóloga e professora na Hosfstra University, em Nova Iorque e na Universidade de Salamanca, Elvira Souza Lima aborda a Atenção e o Pensamento.

Atenção

Interativo: Como acontece a atenção?

Elvira: A atenção acontece pela capacidade que o ser humano tem de regular a percepção, eliminando alguns estímulos para chegar a se concentrar em outros. Ou seja, a atenção é conseqüência de um processo de escolha, voluntária ou involuntária, entre diferentes possibilidades da percepção realizada por um ou mais órgãos dos sentidos. Segundo as pesquisas da neurociência, a atenção acontece pela formação de redes neuronais responsáveis pelos estados de alerta, de foco e concentração e, finalmente, de atenção chamada de atenção executiva. Esta última é condição para as aprendizagens escolares.
Atenção é um processo que se constitui pela integração de fatores biológicos e culturais.

Interativo: Qual o seu papel e função na aprendizagem?

Elvira: Sem atenção não há formação de memórias e sem formação de memórias não há aprendizagem dos conhecimentos escolares. É um modo um pouco simplista de colocar a questão, mas é aproximadamente desta forma que as coisas acontecem. O estado de alerta é condição inicial para a concentração em um tema de estudo; desta forma, o planejamento do professor e a adequação da tarefa ao período de desenvolvimento do aluno são
fatores que provocam (ou não) o estado de alerta. Além deste primeiro momento, a atividade proposta deve levar, pela motivação, ao engajamento do aluno com o conhecimento. O professor depende da manutenção da atenção para que a aprendizagem aconteça. É importante destacar que a atenção se educa, se forma como comportamento. A atenção necessária para a aprendizagem dos conhecimentos escolares precisa fazer parte, portanto, dos objetivos curriculares.

Interativo: Existem maneiras de estimular a atenção?

Elvira: Comportamentos de atenção se formam desde a educação infantil, uma vez que isto esteja estabelecido no currículo. Prestar atenção, focar, manter-se atento, utilizar estratégias que facilitam a atenção são comportamentos que podem (e devem) ser ensinados e praticados com as crianças desde cedo.
Na verdade, a cultura é muito importante na infância para a atenção, uma vez que as práticas culturais da infância exigem, exercitam e qualificam os estados de atenção. As brincadeiras infantis, a música, o desenho, a dramatização são situações próprias do desenvolvimento infantil que têm como característica central a mobilização e permanência de estados de alerta e de foco da atenção.
As artes, mais antigas que as práticas pedagógicas escolares, têm em sua própria essência a condição de formar estados de atenção, pois sem eles não se toca instrumento, não se dança, não se desenha, não se compõe música. E assim por diante.
Desta forma, a atenção necessária para que os alunos aprendam resulta de uma proposta curricular que tem como objetivo trabalhar não somente com conhecimentos formais, mas também com as formas de atividade
humana que permitem ao ser humano aprender tais conhecimentos.

Pensamento

Interativo: Como o pensamento é constituído? Qual a função do pensamento no processo de aprendizagem?

Elvira: O pensamento é constituído pelo desenvolvimento de processos internos do próprio cérebro. Os processos internos são resultados, também, das experiências de cada um com o mundo físico, químico e cultural que constituem os contextos em que vivem as pessoas.
O processo de escolarização traz conseqüências importantes ao pensamento, por trabalhar com categorias, por organizar informações, por criar e organizar memórias em sistemas. Este é um processo dialético, pois à medida que se organizam os conhecimentos em sistemas, que se formam conceitos, a pessoa vai tendo maior amplitude para tratar com várias informações ao mesmo tempo e, também, de aprofundar a reflexão em um tema. Assim chega-se, eventualmente, ao processo de criação.
Pensar também é uma coisa que se aprende, que depende de exercício constante e depende, também, de cada um de nós ser ensinado a utilizar as estratégias de que a espécie humana dispõe para trabalhar com símbolos e desenvolver a imaginação.
A escola é um lugar por excelência para se desenvolver a capacidade humana de pensar e de criar.

O desenho no desenvolvimento infantil - entrevista com Elvira Souza Lima



quinta-feira, julho 16, 2009

As aprendizagens escolares na educação infantil -Elvira Souza Lima

A criança pode formar comportamentos na educação infantil que servirão de base às atividades de estudo posteriores

A criança pequena realiza durante o seu desenvolvimento várias atividades de natureza biológica e cultural que criam, de forma natural, suportes para as aprendizagens escolares que acontecerão a partir do ensino nas séries que constituem a educação básica (Lima, 2004, 2007, 2008). Assim, falar em aprendizagens na educação infantil significa falar em desenvolvimento: o desenvolvimento adequado na infância é que possibilitará muitas aprendizagens escolares posteriores. As práticas culturais da infância promovem o desenvolvimento fundamental desse período, como a função simbólica, a percepção, a atenção e a perícia dos movimentos amplos e dos movimentos mais circunscritos das mãos, dos pulsos e dos dedos, estes últimos necessários para escrever.

leia aqui:

Revista Pátio Online
Ano VI - Nº 19 - Para que serve a educação infantil? - Março-Junho 2009




Entrevista de Elvira Souza Lima para a Revista Educação

"A criança é um ser de cultura"

A favor de um trabalho integrado na educação infantil, Elvira Souza Lima diz que a criança está empobrecida e defende um pacto entre adultos pela nova geração. Leia a entrevista  de Elvira Souza Lima, realizada por Juliana Holanda no link:

Revista Educação Infantil n 3

quarta-feira, maio 07, 2008

LER SE APRENDE COM CULTURA

A série LER SE APRENDE COM CULTURA de autoria de Elvira Souza Lima se destina a apoiar os adultos que, de uma forma ou outra, se ocupam da formação da infância e da juventude. Ela apresenta possibilidades de trabalho envolvendo a cultura que, em seu conjunto, mobilizam as várias áreas do cérebro envolvidas no ato de ler.

saiba mais www.editorainteralia.blogspot.com
www.livros107.blogspot.com

domingo, maio 04, 2008

Currículo e Desenvolvimento Humano por Elvira Souza Lima

INDAGAÇÕES SOBRE CURRÍCULO

A publicação Indagações sobre Currículo do MEC tem por objetivo promover a reflexão sobre as concepções de currículo e seus desdobramentos.

Acesse aqui o texto de Elvira Souza Lima: Curriculo e Desenvolvimento Humano (em formato pdf) no site do MEC Indagações sobre Currículo (MEC)